Domingo, Dezembro 13, 2009

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O contraste das belezas (Região Trairi do RN)


O dia que Júpiter encontrou Saturno

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.


Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.


Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.

Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.

E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every dau, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.

(Silêncio)


-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?

(Silêncio)

-Você tomou alguma coisa?
-O quê?
-Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
-Não tomei nada. Não tomo mais nada.
-Nem eu. Já tomei tudo.
-Tudo?
-Cogumelos têm parte com o diabo.
-O ópio aperfeiçoa o real
-Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.

(Silêncio)

-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?
-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.

(Silêncio)

-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Eu sabia também.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.

(Silêncio)

-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.

(Silêncio)

-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.

(Silêncio)

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.


-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos.
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.

(Silêncio)

-Me beija.
-Te beijo.

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz.

Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.

Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.

Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-sena janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.


De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.


(Caio Fernando de Abreu)

Terça-feira, Novembro 24, 2009

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Sorte é aceitar o que a vida nos oferece de melhor, sem preceitos, exigências.


Domingo, Novembro 22, 2009

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Nossa vida é como uma grande sessão de cinema... No começo todos vibram, esperam ansiosamente, com pipocas, guloseimas... Conversam, se olham, esperam... Até que todas as luzes se apagam, um blackout excitante, mas a ansiedade só aumenta, o coração acelera gradativamente, sem muito alarde, sutil. O filme começa e finalmente as atenções se direcionam a um único alvo, todos ficam ali, estáticos, concentrados. Ninguém sabe ao certo o que esta observando, apenas assistem tudo... Uns bem mais inquietos que outros, participam da cena, de uma forma pouco discretra, sofrem julgamento, mas o fazem mesmo assim. A história se desenrola e cada um adquire o conceito que convém, individualmente, cada um se alimenta com o que de melhor lhe é permitido... Alguns não prestam atenção, outros julgam, poucos no final de tudo vai saber do que se tratava a história... Mas todos fazem parte, como se por dever, tivesse que existir cada personagem aqui citado, uma espécie de cinema na vida real, onde cada um tem seu papel, fundamental. Então o filme acaba, aparece o CAST com todos os créditos, muitos se levantam e nem esperam o final de tudo, outros permanecem ali, aguardando, como se o fim fosse exatamente quando tudo termina...


Sábado, Novembro 21, 2009

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O ser imperfeitamente humano, e suas limitações... Que posso eu fazer numa guerra, quando ficar desarmada? Esperar, morrer? Tudo que me foi tirado, era meu, por direito, de nada adianta tentar explicar por meio de regras nunca antes vistas... É simples, você foi covarde. Já experimentou xingar um surdo? Então... Fico pensando, como consigo sobreviver as explosões, será que não me atacaram desde a última vez? Eu declaro a paz, pra sempre.


Quinta-feira, Novembro 19, 2009

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"Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer.'' (Franz Kafka)

Enche-me os olhos com teu bem estar, suaviza as cores da rotina com toda aquela leveza do teu encanto, e me toma nos braços com o orgasmo da tua voracidade... Foi cantando que aprendi a falar tua lingua, dos gestos, do jeito... Interpreta-me com aquele teu carinho, o fungado mais gostoso, do denguinho matinal. Permita-se sempre me procurar quando eu não me perder, só me aches quando eu realmente não sentir necessidade de achar a mim mesma, não questione, faça. Descubra o óbvio, diariamente. Eu sempre quis saber, será que essa é mesmo você? É como se todo o enigma da vida se resumisse, uma síntese perfeita, cada dia, mas seria tão bom assim? Amar é cruel, em todos os sentidos, e essa crueldade me toma de jeito, me joga por entre os lençois mais sujos, e desejados... Sinto como se houvesse muito por acontecer, mas como se já tivesse acontecido de tudo, e esse tudo é sempre pouco. Eu te levo comigo por cada canto do meu dia, passeio dentro de mim, e sempre acho a ti, ali, quieta, imune a qualquer perigo... Senta aqui, do meu lado, velejaremos juntas por toda parte, veremos o por do sol de cada sol, por... Sol de dia, de noite... Eliminaremos a dor do 'não-estar-junto-a-ti-nesse-momento', pois pra sempre nos encontraremos, as duas...


Verdade...

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Terça-feira, Novembro 17, 2009

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"O amor é o ridículo da vida. A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo,indo embora. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraiso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não doi."

(Cazuza)


Quinta-feira, Novembro 12, 2009

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Então eu quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado… Vem para que eu possa acender velas na beirada da janela, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis… Vem para que eu possa recuperar sorrisos, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou, além de chamar você agora… Porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois”.


(Caio Fernando de Abreu)



Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Prazer insone...

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Logo eu, que sempre tive medo de ficar sozinha, hoje me encontrei com a multidão e não gostei do que vi... Bando, cardume, manada, junta, magote... Corja? Resumindo, monte de nada. Olhei pra baixo, com toda minha superioridade, minhas limitações plastificadas, contidas nas minhas próprias fronteiras... Coitados, eu pensei, meu desejo era de reunir toda aquela pouca vergonha e jogar na cara de deus: - Aí está, suas citações de amor, ta gostando do que ver? Eu não meu grande senhor, é agoniante ver o quanto desprezo todo o resto, e eu odeio desprezar. Lembram-nos a todo tempo de que amar é olhar pra dentro, enxergar a joia mais simples como parte de um tesouro preciosíssimo, objeto. Esquece, nunca mais conseguirei olhar pra frente sem me sentir incomodada com tudo o quê me atormentou os pensamentos, meses antes... Anos depois? Depende de onde estará a vergonha, na cara de deus?

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

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A ausência de nexo, por hora traduz minha verdade... A indecisão é subversiva, machuca, mas excita o desejo mais escondido, numa forma doentil de flagelar-se, mesquinho. Ontem viajei do paraíso ao inferno, e logo depois já estava aqui, em lugar nenhum, com sede, desejando, e na falta do que procurar, encontrei a mim mesma, perdida. Eu acumulo perguntas, não acho as respostas, e penso que assim é a melhor saida, a dúvida, é gostoso demais. A certeza muitas vezes nos obriga a tomar decisões... Não quero sacrificar meus pensamentos imorais, gosto de não 'TER QUE'. Quer saber o que eu sinto agora? Sinto tudo, ao mesmo tempo, das mais variadas formas de poder, amar, querer, fazer, sentir... Sinto como se por anos tivesse aprisionada nos desejos alheios, e agora me permito sentir sozinha, sem depender de vontades, manias, desafios... Quero poder sonhar, despretenciosamente...


Eu sinto o peso do tempo, ainda leve...